sábado, 4 de junho de 2016

#textos


Andaremos em Campos de Ouro


Estaremos um dia a caminhar entre campos floridos, perdidos entre a relva, que na doçura nos consumirá... Estaremos calados, olhando a inocência dos campos de cevada. Estarei cheio da vida, cheio de toda benevolência forçada, dos carinhos metódicos. Estaremos nós dois, a caminhar risonhos na aurora, entre aqueles campos dos meus sonhos. Livres de todas as cordas que nos prendem, cordas que insistem em enaltecer pequenas dores diárias.
Você caminhará em minha frente, com o sorriso das manhãs de abril, a ler minhas poesias que são suas, que são do mundo, da vida. Caminhará serena enquanto meus olhos perseguirão seu corpo claro, por entre os caminhos feitos na dobragem da cevada. Estaremos nós dois, como duas crianças a brincar de viver. Você sentirá fome, e falará algo distraída, enquanto eu, calado, ouvirei atentamente, como um servo eterno. Comeremos as frutas que um dia plantamos na incerteza da seca. As frutas terão seu perfume... seu cheiro sutil.
Haverá lá na frente, quase que esquecida no horizonte, nossa casa. Que terá apenas o conforto natural do seu corpo e a minha sensata obrigação de cuidar do campo. Nossa casa terá o jardim coberto pelas folhas, que de propósito deixarei serem espalhadas pelo o cachorro. O cachorro se chamará Hassan, fiel e valente a caçar pipas.
O vento que balançará o campo terá o cheiro puro da inocência. Cheiro de terra, de amora, de mel. Este vento nos cobrirá ao anoitecer, deixando a fraca impressão de nos levar a voar sobre o campo. E dormiremos afortunados e crentes de que tudo é real. E se deveras for, sonharemos. Sonharemos os sonhos de infância, os velhos sonhos que nos abrigaram.
Levantarei na hora neutra da madrugada e irei a varanda descalço, sentarei a contemplar a madrugada... Sereno e pequeno, na candura da névoa a passear por mim. Então acordarei o mundo com meu violão, e com notas simples silenciarei o tédio dos que sofrem pela última vez.

E depois de viver todas as intensas emoções, depois dos cem anos, numa manhã fria, sem que a vida percebesse, morreremos. Morreremos ali, juntos. Num dia claro de novembro, sobre os refrões da nossa música preferida. “Andaremos em campos de ouro...” dirá a música. Morreremos juntos, de mãos dadas, feito os anos que passamos a caminhar entre os campos. Você me dirá sua última palavra, que terá toda sua vida contida nela, e eu direi a mesma palavra. Será nossa última coincidência, a última de milhares. Olharei sua face tranquila, que terá a expressão terna e meiga. Ficaremos estirados na relva quente á mercê da natureza, a mesma natureza que nos criou, agora enfim, nos enterrará.



Willian Xavier
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